A técnica "Gosto e Faço" de Lucchiari



A técnica "Gosto e Faço", desenvolvida por Lucchiari em 1993, é uma ferramenta pedagógica focada na autoavaliação e no desenvolvimento da autonomia e metacognição em estudantes. Ela se baseia na premissa de que o aluno, ao refletir sobre suas preferências e dificuldades em relação a uma atividade ou conteúdo, torna-se mais consciente de seu próprio processo de aprendizagem e, consequentemente, mais capaz de gerenciá-lo.

A essência da técnica reside em fazer com que o estudante classifique as tarefas ou tópicos estudados em duas categorias principais: "Gosto" e "Faço". No entanto, essa classificação não é um simples sim ou não; ela se desdobra em uma análise mais aprofundada. Veja os detalhes de como a técnica funciona:

1. Categorias de Análise

Para cada atividade, conteúdo, ou até mesmo disciplina, o aluno é solicitado a responder a duas perguntas centrais:

  • "Gosto de fazer?": Esta pergunta explora a dimensão afetiva e motivacional. O objetivo é que o aluno identifique se tem prazer, interesse ou afinidade com a tarefa em questão. A resposta não se limita a um "sim" ou "não", mas sim a uma gradação ou detalhamento do porquê gosta ou não gosta.

  • "Sei fazer?": Esta pergunta aborda a dimensão cognitiva e de habilidade. O aluno deve avaliar seu nível de proficiência e compreensão em relação à tarefa. Novamente, a resposta deve ir além do "sim" ou "não", especificando o que sabe, o que não sabe, e onde reside a dificuldade ou facilidade.

2. Aprofundamento da Reflexão

O diferencial da técnica "Gosto e Faço" está na solicitação para que o aluno justifique suas respostas. Não basta apenas dizer "gosto" ou "sei fazer", é preciso elaborar:

  • Por que gosta/não gosta? (Ex: "Gosto de matemática porque os desafios me estimulam", "Não gosto de história porque acho difícil memorizar datas e eventos").

  • O que sabe/não sabe fazer? (Ex: "Sei resolver equações de primeiro grau, mas tenho dificuldade com sistemas de equações", "Não sei formular argumentos claros em uma redação").

Essa etapa de justificação é crucial, pois força o aluno a:

  • Identificar suas emoções e sentimentos em relação à aprendizagem.

  • Reconhecer suas forças e fraquezas cognitivas.

  • Articular suas percepções, o que contribui para a metacognição (pensar sobre o próprio pensamento).

3. Matriz de Análise (Implícita ou Explícita)

Embora Lucchiari não apresente uma matriz formal, a técnica pode ser visualizada como uma matriz 2x2, onde cada atividade ou conteúdo se encaixaria em uma das seguintes categorias, com as respectivas implicações pedagógicas:

  • Gosto e Sei Fazer: Atividades que o aluno domina e aprecia. Servem para consolidar o conhecimento e aumentar a autoconfiança. O professor pode propor desafios mais avançados ou incentivar o aluno a auxiliar colegas.

  • Gosto, mas Não Sei Fazer: Atividades que o aluno tem interesse, mas apresenta dificuldades. Indicam áreas de grande potencial para desenvolvimento. O professor deve fornecer apoio direcionado, recursos adicionais e estratégias de ensino que capitalizem o interesse do aluno.

  • Não Gosto, mas Sei Fazer: Atividades que o aluno domina, mas não sente prazer em realizar. Podem indicar a necessidade de contextualização, aplicação prática ou abordagens mais motivadoras. O professor pode explorar a relevância do conteúdo ou propor diferentes formatos para a tarefa.

  • Não Gosto e Não Sei Fazer: Atividades que representam o maior desafio e desmotivação. Exigem atenção redobrada do professor. É fundamental investigar as razões para a aversão e a dificuldade, oferecendo suporte intensivo, estratégias de ensino diferenciadas e, se possível, conectando o conteúdo a interesses do aluno.

4. Aplicação e Benefícios

A técnica "Gosto e Faço" pode ser aplicada de diversas formas:

  • Individualmente: Cada aluno preenche um formulário ou discute com o professor.

  • Em grupo: Discussões em sala de aula sobre as percepções dos alunos.

  • Em diferentes momentos do processo de ensino-aprendizagem: No início de um tópico para identificar conhecimentos prévios e expectativas; durante o processo para monitorar o aprendizado; e ao final para avaliar a compreensão e a experiência geral.

Os principais benefícios da técnica incluem:

  • Aumento da Autonomia: O aluno assume um papel ativo na avaliação de seu próprio aprendizado.

  • Desenvolvimento da Metacognição: A reflexão sistemática sobre o que se sabe, o que não se sabe e por que, aprimora a capacidade de gerenciar o próprio aprendizado.

  • Feedback Qualificado para o Professor: As respostas dos alunos fornecem informações valiosas sobre suas dificuldades, interesses e necessidades, permitindo ao professor planejar aulas mais eficazes e individualizadas.

  • Melhora da Relação Professor-Aluno: Demonstra que o professor valoriza a opinião e a experiência do aluno.

  • Promoção do Engajamento: Ao se sentir ouvido e ter suas preferências consideradas, o aluno tende a se engajar mais no processo.

Em resumo, a técnica "Gosto e Faço" de Lucchiari é muito mais do que uma simples pesquisa de opinião. É um convite à introspecção e ao diálogo, que capacita os alunos a se tornarem aprendizes mais conscientes, autônomos e eficazes, ao mesmo tempo em que oferece ao educador um panorama detalhado para otimizar suas práticas pedagógicas.

Comentários